Wednesday, February 21, 2007

DERIVA

vai aqui um poema que descobri há uns dias num livro do Miguel Sousa Tavares entitulado "SUL"
tocou-me profundamente pois resume uma parte de mim,
o gosto pela viagem ...
o prazer de ver, o prazer dos caminhos sem rumo,
poerentos, de cheiros e sabores que jamais poderão ser descritos...



DERIVA



Vi as águas os cabos vi as ilhas
E o longo baloiçar dos coqueirais
Vi lagunas azuis como safiras
Rápidas aves furtivos animais
Vi prodígios espantos maravilhas
Vi homens nus bailando nos areais
E ouvi o fundo som das suas falas
Que já nenhum de nós entendeu mais
Vi ferros e vi setas e vi lanças
Oiro também à flor das ondas finas
E o diverso fulgor de outros metais
Vi pérolas e conchas e corais
Desertos fontes trémulas campinas
Vi o frescor das coisas naturais
Só do Preste João não vi sinais

As ordens que levava não cumpri
E assim contando tudo quanto vi
Não sei se tudo errei ou descobri


Sofia de Mello Breyner Andreson

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